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Por Rogério Godinho

Em jejum, o Consumidor faz o exame genético diário. A lâmina de teste fica verde e ele bebe o líquido com a cor correspondente. Ele não se importa em saber a causa, o tratamento é padronizado e certeiro, específico para ele. Em poucos dias, qualquer problema terá sido sanado. Ele não se preocupa mais com isso, os computadores fazem isso por ele.

Na cozinha, o Consumidor abre a geladeira, pega o recipiente de leite e vira o líquido no copo. Uma pequena luz acende no canto da cozinha. Cinco litros de leite já foram encomendados ao supermercado e o débito foi feito na conta do Consumidor. Os computadores agora também tomam conta disso por ele.

Depois de tomar o café da manhã, o Consumidor se veste. Não há hesitação ao se vestir. Há poucas peças no seu armário. Põe a calça e a camisa, para depois dizer a cor e desenho desejado. Calça o sapato, mas fica indeciso quanto à cor. Marrom, não, preto. Marrom. O sapato muda rapidamente de cor. Esta é uma das poucas decisões a serem tomadas.

Ao sair na rua, ele mal sente a queda de temperatura. A roupa sobe três graus e torna o clima agradável para o Consumidor. A mancha de tomate do dia anterior já sumiu. Agora, o tempo seco faz a vestimenta aumentar a hidratação da pele. Ao mesmo tempo, envia sinais para a loja porque aquela versão já foi usada 20 vezes. O Consumidor irá receber uma oferta de um novo formato naquela tarde. Se aceitar, a roupa poderá assumir uma nova forma, em um desenho lançado no dia anterior pelas empresas de moda. A tecnologia lhe oferece opções, ele só tem de escolher.

Protegido das intempéries, o Consumidor anda pelas ruas. Ele não receia assaltos. As ameaças físicas desapareceram de quase todas as cidades. As câmeras são ubíquas, distribuídas em esquinas e dentro dos edifícios. As pessoas são identificadas biometricamente e por dispositivos móveis como roupas e celulares. Para ter segurança, o Consumidor abriu mão da privacidade. Períodos solitários ou de anonimato podem ser comprados, mas o preço é alto.  Não importa, esta foi uma das decisões importantes, mas ela já foi tomada.

Agora, o Consumidor é um Executivo. Ele negocia com parceiros em Taiwan. Eles falam em mandarim, ele em português. Tradutores de idioma são ativados automaticamente. Termos técnicos e legais usados de ambos os lados aparecem nas telas ao redor com descrições e imagens. A velocidade de raciocínio e a capacidade de análise se tornam mais importantes do que a memória e o domínio de idiomas.

A vida será mais agradável e confortável, mas algumas escolhas serão necessárias. Produtos se transformam em serviço. Os Executivos terão de estar atentos. Há riscos para a sociedade, como o de uma nova classe de excluídos. Sem identidade eletrônica, serão marginalizados e incapazes de participar da vida social e econômica. No futuro, cada decisão de Consumidores e Executivos será muito mais importante.

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