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Por Alexandre Barbosa
Me pediram para escrever sobre o futuro da tecnologia nos próximos quarenta anos, à guisa do aniversário da HP Brasil. Já não é fácil antecipar o que será do futuro no ano que vem, mas, vamos tentar. A internet permanecerá como o centro de tudo o que consumimos em termos de informação, com áudio, vídeo, textos, fotos pessoais. O espaço disponível para guardar dados tenderá a infinito, enquanto o custo disso será infinitesimal.
Diante disso, haverá a evolução definitiva do conteúdo dissociado de seus suportes físicos, o que equivale ao fim dos discos ou dispositivos portáteis para armazenar nossas músicas. Com uma Web praticamente onipresente e alta velocidade no acesso móvel, tanto faz guardar em chips de memória flash ou na internet a música preferida (as infinitas playlists), o filme que se quer assistir.
Na parte de mídia, os grandes players dividirão em definitivo a preferência do usuário, que vai combinar a seu gosto o que quer assistir, como assistir. Não existirão milhares de canais, milhões de sites, bilhões de vídeos entre os criados daqui até o futuro ou todo o acervo mundial já filmado desde os primeiros experimentos dos irmãos Lumière (e que estarão totalmente digitalizados até o final da próxima década), mas sim só um canal: o canal EU, com aquilo que cada um gosta, do jeito que gosta.
Será um desafio enorme para as empresas de comunicação, mas também uma oportunidade imensa para quem cria e gosta de compartilhar idéias.
A internet também não estará restrita a computadores, que sofrerão grandes transformações em relação às caixas e telas que conhecemos hoje. Os sistemas do futuro estarão dispersos entre centrais de processamento (os tataranetos dos atuais PCs) e vários dispositivos especialistas, espalhados pela casa ou em dispositivos chipados que irão dos carros às nossas vestimentas. Ok, isso já acontece hoje, então será um aperfeiçoamento do que já vemos. Outra novidade serão as interfaces: falaremos mais com estes sistemas, gesticularemos, daremos ordens com o levantar de sobrancelhas.
Uma boa incógnita é pensar se trabalhos como o do neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis nos levarão a sistemas de comando baseados em nosso pensamento, pavimentando o futuro para aplicações como uma cyber-telepatia em lugar de ligações celulares. Uma vez superada a rejeição biológica a estes implantes e decifrando como o cérebro interpreta sinais visuais e auditivos, componentes embutidos em nós poderiam criar imagens tridimensionais reais visíveis apenas para você. Fabricantes de displays iriam à falência, e essa nova realidade teria um sério impacto em reuniões de negócio.
Levado ao extremo, essa interação homem-máquina poderia levar ao comércio não de vivências em texto ou vídeo, como fazem escritores e jornalistas, mas de experiências. Um pára-quedista poderia ‘gravar’ todas as sensações que tem ao saltar de um avião, um alpinista gravaria o que sente ao chegar ao topo de uma montanha e tudo isso poderia ser um arquivo digital que você compra e, bem... sente, como se fosse a própria pessoa.
Mas deixando as interfaces neurais e implantes, pode ser que nós só consigamos usar o pensamento usando sensores externos, em contato com nossas frontes, lendo o movimento de nossos olhos. Ainda assim é um futuro digno da ficção.
Antevejo, claro, problemas crescentes com a dependência da rede, com ataques à infra-estrutura tecnológica como o campo mais promissor para atividades terroristas ou criminosas e entraves gravíssimos à privacidade, numa briga de gato-e-rato sem fim. Nada novo ao que já enfrentamos em toda a história da evolução tecnológica, desde a prensa de Gutemberg.
E, claro, não é difícil imaginar que em lugar de celulares teremos um dispositivo omnidigital, misto de PDA-celular-carteira-localizador-câmera-monitor de saúde, conectado todo o tempo a repositórios seguros de dados, que poderão gravar 24 horas de áudio e vídeo de tudo o que nos cerca.
Uma promessa feita, um comentário dito num encontro de amigos, a palavra exata, a pessoa certa, a ocasião, tudo isso estará ao alcance do usuário que terá uma espécie de “Google MyLife” à sua disposição para lembrar do prato escolhido no jantar em que namorados viraram noivos ao lugar onde ficaram as chaves do carro. Nossos filhos e netos, auxiliados pela tecnologia, aposentarão de vez o uso da palavra ‘esquecer’. |